Um cigarro é um cigarro

Escrito por: Gislei Thursday, 13 July 2017 ·
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Este é um texto explicito, reprodução do original por Antonio Risério. →

É claro que não vou entrar com um cigarro aceso num elevador ou numa farmácia. Nem acender um cigarro dentro do seu carro, numa carona até à praia. Mas, por favor, não me convide para jantar ou para tomar um vinho em sua casa, se lá não tiver uma varanda, um quiosque, um jardim, um lugar qualquer, onde eu possa fumar em paz.

O aviso é indispensável, hoje. O cerco sobre os fumantes se fechou quase ao extremo. Em algumas casas, não há sequer um cinzeiro (a única palavra, aliás, que o meu amigo Laonte Klawa, fumante e esteta sensível, sabe em várias línguas, de modo a sempre ter um à mão, quando viaja). E, quando você acende um cigarro, não falta quem olhe atravessado ou de cima, ou mesmo faça algum comentário daqueles bem agradáveis e gentis, do tipo "você está se matando aos poucos".

Não me irrita, confesso. Mas, às vezes, tenho vontade de perguntar: e daí? Mesmo porque, alguns dos que me disseram isso já se foram solenemente para o outro mundo. Ou, como no verso de Maiakovski, partiram por dentro das estrelas. Bon voyage, é claro, mas, por enquanto, continuo por aqui.

"Por favor, não atrapalhe minha viagem autodestrutiva", costumava dizer, com aparente delicadeza, meu bom amigo Paulo Leminski, cortando de vez quem vinha com a conversa de que ele estava bebendo demais. E às vezes dá vontade de repeti-lo, diante do assédio mal-educado, ainda que bem intencionado, de não-fumantes e/ou antitabagistas.

O mais engraçado, por sinal, é que eles acham que todo mundo quer deixar de fumar. A cena é comum. Acendo um cigarro e, de imediato, alguém abre a boca para me falar de algum remédio ou método infalível, que vai me fazer abandonar o cigarro de uma vez por todas. Logo, a pessoa fica algo perplexa, desconcertada, quando declaro, tranqüilamente, que gosto de fumar e que não tenho a mínima intenção de me afastar do hábito ou vício.

Deixar de fumar é algo que, definitivamente, não está em meus planos. E um dos meus grandes prazeres, sem dúvida, é tragar longamente o cigarro, sozinho, no meio da noite, na varanda de minha casa, olhando o céu cheio de estrelas.

Na verdade, acendo um cigarro a propósito de tudo ou quase tudo. Para escrever, para fazer ou atender uma ligação telefônica, para dirigir o carro, para abrir a porta de casa a uma visita, antes de entrar no chuveiro ou no avião, depois de arrumar as compras do mercado, a fim de olhar as plantas ou brincar com os cachorros no quintal, antes de mergulhar na piscina, quando saio para andar um pouco, etc., etc.

Curiosamente, aliás, nunca tive o hábito do um-uísque-antes-e-um-cigarro-depois, em matéria de sexo. Nem fumo no meu quarto. Afora isso, sou uma chaminé.

Vício? Claro. Prejudicial? Sim - e não tenho a menor intenção de levar ninguém a começar a fumar, muito pelo contrário. Mas e você, quando é mesmo que, antes de deitar falação sobre os males do cigarro, vai parar de encher seus pulmões com os venenos com que os automóveis emporcalham o ar das nossas cidades? Quando é que vai fazer um "sit-in" na porta de alguma fábrica, em protesto contra a indústria automobilística?

Bem, é mais fácil e mais cômodo encher o saco de fumantes do que tentar impedir ônibus e caminhões de saírem da garagem. Daí que todos prefiram se esquecer de que estão sendo diariamente envenenados por esses veículos.

Além disso, o antitabagismo atual vem com o aval da moda e da mídia. Com o charme da vida supostamente saudável. E que antitabagista vai abrir mão de sair por aí poluindo a cidade com o cano de descarga prateado de seu próprio carro? Não, basta cutucar e incomodar um pouco o vizinho que abriu o maço, colocou um cigarro na boca e já vai retirando o isqueiro do bolso. Feito isso, missão cumprida.

Anos atrás, numa reunião em São Paulo, o publicitário (e amigo) Marcelo Kertézs, ao me ver fumando, perguntou: "Você não acha esse negócio de fumar uma coisa muito antiga?" Acho - respondi. E, depois de uma breve pausa, completei: mas foder é mais antigo ainda...

E, já que falamos de antiguidade, vale uma nota histórica. As recentes campanhas antitabagistas, em nosso país, começaram em São Paulo, com Paulo Maluf, que as importou dos EUA. De lá para cá, a coisa só fez crescer.

Mas a primeira campanha antitabagista, no Brasil, data dos primeiros tempos da colonização lusitana. Mais precisamente, data do início da colonização oficial, estatal, dos trópicos atualmente brasileiros. E foi movida pelos padres da Companhia de Jesus, pelos jesuítas comandados por Manoel da Nóbrega.

O tabaco, como se sabe, é planta americana, que os europeus desconheciam. Nossos tupinambás e tupiniquins adoravam fumar. Tratavam o tabaco de "erva santa". Os portugueses que vieram para cá, aderiram. Passaram a fumar - para desanuviar o espírito, para matar o tempo, para curar doenças. Os jesuítas não gostaram. Fizeram uma tremenda campanha contra o costume indígena. Historicamente, portanto, eu, fumante, descendo dos índios. E você, antitabagista, é filho de padre.

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